O Estranho


    Um texto fictício onde uma criança muçulmana relata a chegada de um estranho a sua casa e como esse novo hóspede tentou corromper os valores morais da sua família.

    *****

    Poucos meses após eu nascer, meu pai conheceu um estranho que era novo na nossa pequena cidade. Desde o início, papai ficou fascinado com esse novato encantador, e logo o convidou para viver com nossa família. O estranho rapidamente foi aceito e estava sempre perto para me receber no mundo alguns meses depois.

    À medida que fui crescendo, nunca questionei o lugar dele na nossa família. Na minha mente jovem, cada membro tinha seu nicho especial. Meu irmão, Yusuf, 5 anos mais velho, era meu exemplo. Samya, minha irmã mais nova, me deu a oportunidade de bancar o irmão mais velho e aprender a arte de fazer brincadeirinhas (com os outros). Meus pais eram instrutores complementares – mamãe me ensinou a amar a Deus e papai me ensinou a obedecê-Lo.

    Mas o estranho era nosso contador de histórias. Ele podia criar os contos mais fascinantes. Aventuras, mistérios e comédias eram conversas diárias. Ele podia manter a atenção da nossa família inteira por horas a fio. Se eu quisesse saber sobre política, história, ou ciência, ele sabia. Ele sabia sobre o passado e parecia entender o presente. As figuras que ele desenhava eram tão vivas que eu freqüentemente chorava ou ria quando as observava. Ele era como um amigo para a família inteira. Ele estava sempre nos encorajando a ver filmes e até mesmo tomou medidas para nos apresentar a diversas pessoas famosas.

    O estranho era um falador constante. Papai não parecia se importar, mas às vezes mamãe se levantava silenciosamente – enquanto o resto de nós cativado com uma de suas histórias sobre lugares distantes – ia para o quarto e lia o Alcorão.

    Eu fico imaginando agora se ela alguma vez rezou para o estranho ir embora. Você sabe, meu pai comandou nossa casa com certas convicções morais. Mas este estranho nunca sentiu obrigação de honrá-las. Profanações, por exemplo, não eram permitidas em nosso lar – fosse partindo de nós, nossos amigos ou adultos.

    Nosso visitante de longa data, de qualquer forma, usava umas palavras cabeludas que queimavam meus ouvidos e faziam papai se contorcer. Para meu conhecimento, o estranho nunca foi confrontado. Meu pai era um abstêmio que nunca permitiu álcool em sua casa – nem mesmo na comida. Mas o estranho sentia que nós precisávamos de exposições e nos introduzia a outros estilos de vida. Ele nos ofereceu cerveja, e outras bebidas alcoólicas freqüentemente.

    Ele fez cigarros parecerem gostosos, charutos como algo másculo, e cachimbos como algo distinto. Ele falava livremente (provavelmente muito livremente) sobre sexo. Seus comentários eram às vezes descarados, às vezes sugestivos, e geralmente embaraçosos.

    Agora eu sei que meus conceitos mais antigos sobre a relação entre homem e mulher foram influenciados pelo estranho.

    À medida que eu olho para trás, eu creio que foi pela misericórdia de Deus que o estranho não nos influencia mais. À medida que o tempo passava, ele se opunha aos valores dos meus pais. Ainda assim, ele era raramente repreendido e nunca pedido para se retirar. Mais de 30 anos se passaram desde que o estranho se mudou para a nossa casa. Ele não está tão intrigantemente próximo do meu pai como ele estava naqueles anos anteriores. Mas se você fosse entrar naquele cômodo da casa dos meus pais hoje em dia, você o veria sentado num canto, esperando alguém ouvi-lo falar e assisti-lo desenhando suas figuras.

    O nome dele, você pergunta? Nós o chamamos de TV.

    Portuguese, International
    Old url: 
    http://www.al-islam.org/pt/o-estranho/