A Sala da Minha Vida


    Texto fictício escrito com o objetivo de alertar os irmãos a respeito das nossas ações.

    *****

    Naquele lugar entre falta de dormir e sonhos, eu me achei na sala. Não havia nenhuma característica distinta, exceto por um muro coberto de pequenas tabelas de cartões de arquivo. Eles eram como aqueles achados em bibliotecas que lista títulos por autor ou assunto em ordem alfabética.

    Mas estes arquivos, que se estendiam do chão ao teto e aparentemente infindável em qualquer direção, tinha títulos bem diferentes. Quando eu cheguei perto do muro de arquivos, o primeiro a chamar a minha atenção foi um onde se lia “Pessoas que eu gostei”. Eu o abri e comecei a dar uma olhada nos cartões. Subitamente, eu o fechei, chocado ao perceber que eu reconhecia os nomes escritos em cada um deles. E então sem ninguém me contar, eu soube exatamente onde eu estava.

    Esta sala sem vida com os seus pequenos arquivos era um cru sistema de catálogo para minha vida. Aqui estavam escritas as ações de cada momento meu, pequeno ou grande, em detalhes que minha mente não conseguia compreender. Um senso de espanto e curiosidade, misturado com horror, ocorreu dentro de mim quando eu comecei a abrir os arquivos ao acaso e explorar o seu conteúdo. Alguns traziam alegria e doces lembranças, outros um sentimento de vergonha e arrependimento tão intensos que eu olhava para trás sob meus ombros para ver se alguém estava olhando. Um arquivo chamado “Amigos” estava ao lado de um marcado “Amigos a Quem eu fui Desleal”. Os títulos eram variados. “Livros que eu Li”, “Mentiras que eu Contei”, “Conforto que eu Dei”, “Piadas que me fizeram Rir”. Alguns eram hilários na sua exatidão: “Coisas que eu Vociferei contra meus Irmãos”. Outros eu não poderia rir: “Coisas que eu Fiz em Momentos de Ira”, “Coisas que eu resmunguei para mim próprio contra meus pais”. Eu não parava de ser surpreendido pelos conteúdos.

    Freqüentemente, havia muito mais cartões do que eu esperava. Ás vezes, menos do que eu desejava. O volume completo da vida que eu vivi me causava pavor. Poderia ser possível que eu tivesse tempo em meus 20 anos para escrever cada um desses milhares ou milhões de cartões? Mas cada cartão confirmava esta verdade. Todos foram escritos com a minha própria caligrafia. Todos assinados com a minha assinatura. Quando eu puxei o arquivo marcado “Músicas que eu Escutei”, eu percebi que os arquivos cresciam para acomodar todo o seu conteúdo. Os cartões eram arquivados um bem justo do outro, e mesmo assim depois de alguns metros, eu não conseguia achar o final do arquivo. Eu o fechei, envergonhado, não tanto pela qualidade da música, mas mais pela vasta quantidade de tempo que eu sabia que o arquivo representava.

    Quando eu peguei o arquivo marcado “Pensamentos Libidinosos”, eu senti um calafrio perpassar todo o meu corpo. Eu puxei o arquivo apenas alguns centímetros, não desejoso de saber o seu tamanho, e peguei um cartão. Eu me arrepiei com os detalhes do seu conteúdo. Eu passei mal ao pensar que tal momento havia sido registrado. Uma raiva quase animal estourou em mim. Um pensamento dominou a minha mente: “Ninguém deve jamais ver esses cartões! Ninguém deve jamais ver esta sala! Eu tenho que destruí-los!”.

    Num insano frenesi eu arranquei o arquivo. O seu tamanho não importava agora. Eu tinha que esvaziá-lo e queimar os seus cartões. Porém eu percebi que eu não consegui apagar nenhum cartão. Eu me desesperei e retirei um cartão, apenas para achá-lo tão resistente como aço quando eu tentei rasgá-lo.

    Derrotado e totalmente impotente, eu retornei o arquivo para a sua fenda. Encostando minha testa contra o muro, dei um longo e autopiedoso suspiro. Então, eu o vi. O título dizia: “ Pessoas a Quem eu Ensinei sobre Allah”. A alça era mais brilhante que aqueles ao seu redor, mais novo, quase sem sinais de uso. Eu puxei a sua alça e uma pequena caixa não longa mais que dois centímetros caiu em minha mão. Eu podia contar os cartões que ela continha em uma única mão. Então, vieram as lágrimas. Eu comecei a chorar. Soluços de choro tão profundos que a dor começou no meu estômago e sacudiu todo o meu corpo. Eu fui ao chão em joelhos e chorei. Chorei por vergonha, pela vergonha avassaladora de tudo aquilo. Ninguém deve nunca, jamais conhecer esta sala. Eu devo trancá-la e esconder a sua chave.

    E dizer: “Meu Senhor! Aumenta-me em conhecimento...”

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